
O LiSE – Grupo de Pesquisa Linguística, Semiologia e Escrita foi criado em julho de 2025 e busca investigar a escrita como objeto de reflexão epistemológica, teórica, metodológica e analítica nos estudos da linguagem. Neste breve texto, apresentamos o LiSE a partir de dois horizontes: um horizonte retrospectivo e um horizonte projetivo. Segundo Auroux (2014, p. 12), o “ato de saber possui, por definição, uma espessura temporal, um horizonte de retrospecção, assim como um horizonte de projeção. [...] Sem memória e sem projeto, simplesmente não há saber”. À luz do horizonte retrospectivo, focalizamos a “memória” epistemológica e teórica do LiSE, discernindo os termos nucleares que dão nome ao grupo e que, como verdadeiros “estenogramas” (Milner, 2021), abreviam um conjunto de proposições que o fundamentam. À luz do horizonte projetivo, focalizamos o “projeto” intelectual do LiSE, descortinando a agenda de investigação do grupo.
Sobre o horizonte de retrospecção
Os termos “linguística”, “semiologia” e “escrita” circulam em muitos campos dos estudos da linguagem e, mesmo, de outras áreas do conhecimento. Assim, é importante delimitarmos os contornos desses termos tais como os entendemos, com vistas a delimitarmos os próprios contornos de nosso grupo de pesquisa.
Quanto ao termo “linguística”, este remete, aqui, à nossa base epistemológica: trata-se da linguística de Ferdinand de Saussure e das teorias inscritas em tal linguística. A despeito de suas muitas diferenças, todas essas teorias reconhecem a língua como ordem própria, reconhecimento que impõe restrições na conceitualização do termo “língua” e de suas relações com outros termos: “sistema”, “relações”, “níveis”, “unidades”; “fala”, “enunciação”, “texto”, “discurso”; “falante”, “ouvinte”, “escrevente”, “leitor”; “comunicação”, “diálogo”, “intersubjetividade”, “interação”; “forma”, “sentido”, “referente”, “referência”; “sociedade”, “cultura”, “mundo”, “realidade”. Dentre as teorias de base saussuriana, destacamos a teoria da linguagem de Émile Benveniste, cujas teorizações acerca da enunciação e da semiologia nos são muito caras.
Quanto ao termo “semiologia”, este é tomado, aqui, em uma dupla acepção. Em uma acepção saussuriana, entendemos a semiologia como a ciência que estuda os signos no seio da vida social, ciência da qual é parte integrante a linguística enquanto ciência dos signos linguísticos. À luz dessa acepção, incontornável é uma reflexão teórica sobre a natureza do signo, sua dupla face (significante e significado), seus princípios (arbitrariedade e linearidade), suas relações (associativas e sintagmáticas). Em uma acepção benvenistiana, compreendemos a semiologia como a ciência geral dos signos que tem duas gerações: a primeira geração, que é pautada no signo; a segunda geração, que, por sua vez, propõe duas vias de ultrapassagem da primeira geração. A primeira via tem, como perspectiva teórica, a semântica da enunciação e, como abordagem metodológica, a análise intralinguística do discurso. A segunda via tem, como perspectiva teórica, a metassemântica e, como abordagem metodológica, a análise translinguística dos textos, das obras, das formas complexas do discurso. À luz dessa acepção, incontornáveis são, de uma parte, uma reflexão teórica sobre as relações sistema-discurso, fala-escrita, língua-outros sistemas semiológicos e, de outra parte, uma reflexão epistemológica sobre as relações entre os pensamentos saussuriano e benvenistiano, bem como sobre as possibilidades e os limites da leitura de Saussure por Benveniste feita.
Quanto ao termo “escrita”, este é igualmente tomado, aqui, em uma dupla acepção. Em uma acepção enunciativa, concebemos a escrita enquanto ato de enunciação, o que significa vê-la, por um lado, como um ato de atualização do sistema linguístico em enunciados escritos e, por outro lado, como um ato de instauração das relações locutor-língua, locutor-alocutário, alocução-mundo, indivíduo-sociedade. Em uma acepção semiológica, concebemos a escrita enquanto forma secundária de realização da língua, com tudo o que isso implica em termos de relações forma-sentido, níveis-unidades, língua-pensamento, língua-sociedade. Essa dupla acepção demanda, porém, alguns esclarecimentos.
A respeito das teorizações linguísticas sobre a escrita no século XX, Testenoire (2019) caracteriza uma “corrente fonocentrista” e uma “corrente autonomista”, duas correntes pelas quais se distribuiriam os linguistas que se aventuraram nessas teorizações:
A primeira posição [...] faz da língua uma forma cuja substância, oral ou escrita, é indiferente. A língua escrita não designa, então, uma língua propriamente dita (um sistema semiológico próprio), mas ela designa uma variação no seio de uma mesma língua em termos – conforme o caso – de substância, de comportamento comunicativo, de norma, de registro, de estilo... A segunda posição faz, ao contrário, da língua escrita um sistema distinto da língua falada de um mesmo idioma, [sistema] do qual ela [a segunda posição] reconhece uma autonomia. Língua escrita e língua falada formam, então, dois sistemas semiológicos, duas línguas, que podem interferir [sic], mas que não estão em relação de dependência. Essa partição, muito esquemática, entre corrente fonocentrista e corrente autonomista, desenha duas acepções incompatíveis da noção de língua escrita: ela cruza a partição entre as representações continuísta e descontinuísta da dualidade oral/escrito que atravessa a linguística moderna. [...] À primeira tradição, majoritária, relaciona[m]-se: o Saussure do CLG, Sapir, Bloomfield, Jakobson, Benveniste, Martinet, Gak, Catach, Koch & Oesterreicher (com nuances importantes entre eles); à segunda, que confere à língua escrita o sentido pleno de língua: Hjelmslev, Uldall, Vachek, Pulgram, Harris, Anis (aqui também, com importantes nuances) (Testenoire, 2019, p. 1, tradução nossa).
Com base nessa citação, gostaríamos de fazer dois esclarecimentos relativos à nossa concepção de escrita.
Em primeiro lugar, o adjetivo “secundária” não implica nenhuma visão representacionista da escrita como espelho que refletiria a fala enquanto forma primária de realização da língua: os adjetivos “primária” e “secundária” apenas reconhecem a anterioridade, tanto sociogenética (na história humana) quanto ontogenética (na história de cada homem), da fala relativamente à escrita.
Em segundo lugar, tais concepções de fala e de escrita afastam qualquer concepção autonomista de escrita como “sistema de signos à parte da língua”. Se não negamos as descontinuidades sociais e biológicas entre as duas formas de realização linguística, o que nos interessa sobremaneira são as suas continuidades semiológicas e enunciativas, vale dizer, as suas semelhanças e as suas diferenças em termos de natureza sistêmica e de funcionamento discursivo.
Sobre o horizonte de projeção
Cinco são as paisagens descortinadas pelo horizonte projetivo do LiSE. Cada uma dessas paisagens corresponde a uma linha de pesquisa. Os membros do grupo podem participar de uma ou mais dessas linhas, a depender de seus interesses investigativos.
A primeira linha de pesquisa, intitulada "Escrita e aquisição", acolhe estudos sobre a aquisição da escrita à luz de ideias saussurianas, benvenistianas, freudianas e lacanianas. Suas palavras-chave são as seguintes: aquisição da escrita; semiologia; enunciação; psicanálise.
Já a segunda linha de pesquisa, intitulada “Escrita e ensino-aprendizagem”, acolhe estudos sobre a escrita em contextos pedagógicos tanto escolares quanto acadêmicos. Suas palavras-chave são as seguintes: ensino; aprendizagem; escola; universidade.
Por sua vez, a terceira linha de pesquisa, intitulada “Escrita e perspectivas epistemológicas”, acolhe estudos sobre o papel da escrita na fundação da linguística como ciência. Suas palavras-chave são as seguintes: epistemologia da linguística; escrita “da” linguística; escrita “na” linguística.
A quarta linha de pesquisa, intitulada “Escrita e perspectivas teóricas”, acolhe estudos sobre a escrita em diferentes perspectivas teóricas (enunciativas, semiológicas, discursivas, psicanalíticas). Suas palavras-chave são as seguintes: teorias “e” escrita; teorias “da” escrita; teorizações “sobre a” escrita.
Por fim, a quinta e última linha de pesquisa, intitulada “Escrita e práticas textuais”, acolhe estudos sobre a escrita em diferentes práticas textuais (produção, leitura, revisão, tradução, versão). Suas palavras-chave são as seguintes: produção e leitura de textos; revisão textual; tradução e versão.
Além das linhas de pesquisa, a agenda investigativa do LiSE prevê ações como:
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reuniões mensais on-line com todos os membros do grupo;
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reuniões periódicas (em periodicidade variável), também on-line, com os membros de cada linha de pesquisa;
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reuniões individuais de orientação de trabalhos;
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criação e manutenção de página do grupo no Instagram;
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criação e manutenção de canal do grupo no YouTube;
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participação em eventos;
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publicação em revistas e em livros;
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organização de eventos e de simpósios;
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organização de dossiês temáticos e de obras coletivas.
Como metas a longo prazo, projetamos:
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o intercâmbio com pesquisadores brasileiros e estrangeiros que investigam temas relacionados à linguística, à semiologia e à escrita;
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a contribuição para o delineamento, no Brasil, de campo análogo ao que na França se tem chamado de “linguistique de l’écrit”.
Ao leitor, fica o convite para escrever a história do LiSE conosco.
Giovane Fernandes Oliveira (UFPel)
Líder do LiSE
Carolina Knack (UFRGS)
Vice-líder do LiSE
Pelotas / Porto Alegre, 10 de abril de 2026
Referências
AUROUX, Sylvain. O nascimento das metalinguagens. In: AUROUX, Sylvain. A revolução tecnológica da gramatização. 3. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2014. p. 11-34.
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral I. 5. ed. Campinas: Pontes Editores, 2005.
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral II. 2. ed. Campinas: Pontes Editores, 2006.
BENVENISTE, Émile. Últimas aulas no Collège de France (1968 e 1969). 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
KNACK, Carolina. Texto e enunciação: as modalidades falada e escrita como instâncias de investigação. 189f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2012. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/56027.
MILNER, Jean-Claude. Introdução a uma ciência da linguagem. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021.
OLIVEIRA, Giovane Fernandes. Do homo loquens ao homo loquens scriptor: por uma perspectiva semiológico-enunciativa da aquisição da escrita. 2022. 428 f. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2022. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/257970.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 2012 [1916].
TESTENOIRE, Pierre.-Yves. Langue écrite. Pratiques – Linguistique, Littérature, Didactique, v. 183-184, p. 1-4, dez. 2019. Disponível em: http://journals.openedition.org/pratiques/6757.


